Abstract
O romance Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres de Clarice Lispector tem sido considerado pelos críticos como um caso único e de certa forma anómalo dentro da obra novelística da autora, tratando-se de uma narrativização do encontre amoroso entre os dois protagonistes estruturada de acordo com a trama convencional de história de amor ("romance plot"). A narração do romance utiliza-se ao mesmo tempo de outra trama formulaica, esta bem mais comum na obra de Lispector: a aprendizagem ou demanda ("quest"). A análise aqui empreendida concentra-se no relacionamento entre estes dois fios estruturais e temáticos, partindo da constatação de que as apreciações críticas de Uma aprendizagem têm em geral insistido em demonstrar ou uma simbiose entre os objectivos distintos de amor e de aprendizagem, ou, pelo contrário, uma relação antagónica entre estes, sobretudo no que diz respeito ao desenvolvimento da personagem feminina Lóri. A minha conclusão é que o romance representa antes uma complexa articulação narrativa baseada no modelo de "ambiguidade de possibilidades" (Paul Dixon), não permitindo a determinação univoca da sua mensagem ideológica