Abstract
Este artigo revisita a viragem dramática na paisagem literária e cultural portuguesa nas primeiras décadas do século vinte, operada pela expansão da autoria feminina no mercado editorial, principalmente em forma de poesia lírica. Procuro nele abalar os pressupostos heteronormativos que têm gerido as interpretações deste arquivo, tanto no discurso canónico da história literária portuguesa quanto nas abordagens revisionistas articuladas pelas estudiosas feministas. A discussão centra-se no caso de Virgínia Vitorino, a poetisa mais aclamada no Portugal dos anos 1920, cujos sonetos de amor, largamente neutros em termos de género, lidos no contexto da sua existência lésbica encoberta, encorajam uma interpretação de Vitorino como uma intermediária estética e política entre as culturas da heterossexualidade compulsória e do desejo homossocial feminino.